O Soricomorpha ("forma-de-musaranho") foi um agrupamento taxonômico proposto dentro da classe dos mamíferos para reunir pequenos mamíferos tipicamente insetívoros e escavadores. Na sua definição tradicional incluía todos os musaranhos, solenodontes e toupeiras, além de uma família extinta (os nesofontídeos). A criação do táxon veio na esteira da constatação de que a antiga ordem Insectivora era um agrupamento artificial e polifilético, baseada em caráteres ecológicos e morfológicos convergentes e não em parentesco real, segundo estudos de análise de sequência molecular.
O que era incluído em Soricomorpha
- Soricidae — os musaranhos verdadeiros (pequenos, de focinho pontiagudo e metabolismo elevado).
- Talpidae — as toupeiras e parentes, adaptadas à vida subterrânea (patas robustas, corpo fusiforme).
- Solenodontidae — solenodontes, um grupo relicto das Antilhas com dentes venenosos.
- Nesophontidae (extinta) — pequenos mamíferos endêmicos do Caribe, conhecidos apenas por fósseis e subfósseis.
Por que Soricomorpha foi substituído por Eulipotyphla
A proposta de Soricomorpha acabou sendo rejeitada pela comunidade sistemática quando análises filiogenéticas mais abrangentes — usando múltiplos genes mitocondriais e nucleares e métodos filogenéticos modernos — mostraram que aquele agrupamento não representava um clade completo. Em termos simples, parte dos táxons incluídos no Soricomorpha compartilhava um ancestral comum com os erinaceídeos (os ouriços e gymnures), de modo que excluir os erinaceídeos tornava o Soricomorpha parafilético.
Para resolver esse problema foi proposta e amplamente adotada a ordem Eulipotyphla, que reúne de forma monofilética os grupos de pequenos mamíferos insetívoros “verdadeiros”: Erinaceidae (ouriços e gymnures), Soricidae, Talpidae e Solenodontidae, incluindo quando pertinente os nesofontídeos extintos. Assim, em vez de manter Soricomorpha sem os erinaceídeos — o que deixaria o grupo incompleto — os taxonomistas preferiram ampliar o agrupamento para formar um clado natural.
Evidências que motivaram a mudança
- Análises de sequências mitocondriais e nucleares (diversos genes) que reconstruíram relações filogenéticas com maior robustez do que os estudos morfológicos isolados.
- Resultados repetidos mostrando afinidade próxima entre Soricidae e Erinaceidae, implicando que a inclusão destes últimos era necessária para restaurar a monofilia do grupo.
- Estudos combinados (moleculares + morfológicos) que corroboraram a nova delimitação e permitiram inferir melhor a evolução de adaptações como o modo de vida subterrâneo e dietas insetívoras.
Implicações taxonômicas e atuais
Atualmente, a maior parte das classificações modernas e trabalhos filogenéticos utilizam Eulipotyphla como a ordem que agrupa os insetívoros “verdadeiros” de forma monofilética. O nome Soricomorpha ainda aparece em trabalhos e resumos históricos, mas é considerado obsoleto quando se busca refletir relações evolutivas naturais reconhecidas pelas evidências moleculares. A mudança ilustra como novas técnicas genéticas podem reformular classificações baseadas apenas em semelhanças morfológicas ou ecológicas, separando convergência de parentesco real.